Quem sou eu
Álvaro Lemos Torres
Fundador, primeiro diretor e professor, Octávio de Carvalho esteve entre os personagens que transformaram uma ideia em uma das mais importantes instituições de ensino médico do país.
Fundador, primeiro diretor e professor, Octávio de Carvalho esteve entre os personagens que transformaram uma ideia em uma das mais importantes instituições de ensino médico do país.
Em 23 de março de 1933, um grupo formado por 31 médicos e dois engenheiros reuniu-se para discutir a criação de uma nova escola de medicina em São Paulo. O encontro marcou o início de um projeto que, poucos meses depois, daria origem à Escola Paulista de Medicina (EPM), instituição que se tornaria referência no ensino, na pesquisa e na assistência em saúde. À frente daquela iniciativa estava o médico Octávio de Carvalho.
Formado pela Faculdade Nacional de Medicina, no Rio de Janeiro, em 1915, Octávio já havia construído uma carreira respeitada na Clínica Médica quando passou a defender a criação de uma nova escola médica no estado de São Paulo. O cenário da época ajudava a justificar a iniciativa. O estado contava com apenas uma faculdade de medicina, incapaz de atender à crescente demanda por formação de novos profissionais e pela renovação do corpo docente.
A proposta começou a ganhar forma por meio de reuniões realizadas entre médicos que compartilhavam da mesma preocupação com o futuro do ensino médico paulista. Desses encontros surgiram o Manifesto da Escola Paulista de Medicina, a estrutura administrativa da nova instituição e o compromisso assumido pelos fundadores de transformar uma ideia em realidade.
Em 1º de junho de 1933, a Escola Paulista de Medicina foi oficialmente fundada. Dias depois, em 15 de junho, iniciaram-se as atividades acadêmicas, e Octávio de Carvalho assumiu a direção da nova instituição, função para a qual havia sido escolhido por seus pares.
Os primeiros anos foram marcados por desafios. A Escola funcionava em instalações provisórias, precisava organizar seu corpo docente, estruturar laboratórios, obter reconhecimento oficial e construir um hospital-escola que permitisse a formação clínica dos estudantes. Durante a cerimônia de instalação da EPM, Octávio sintetizou o espírito daquele momento ao afirmar:
"A Escola Paulista de Medicina não é aventura, nem leviandade daqueles que assumiram a responsabilidade da sua criação. Ela se ergue pobre na simplicidade de suas instalações; modesta na parcimônia justa de seus instrumentos, porém soberba na majestade de seu idealismo desinteressado."
Ao longo dos anos seguintes, participou da consolidação da Escola, acompanhando sua organização administrativa, a formação do corpo docente e as iniciativas que permitiram a construção do Hospital São Paulo, considerado desde o início parte essencial do projeto pedagógico da instituição.
Além da direção, exerceu a cátedra de Clínica Médica, dedicando-se ao ensino e à formação de sucessivas gerações de médicos. Sua produção científica também deixou contribuições importantes, com trabalhos voltados, entre outros temas, às úlceras gastroduodenais, à hipertensão arterial e ao diagnóstico radiológico das apendicites.
Apesar do reconhecimento alcançado, um aspecto chama a atenção ao ler História da Escola Paulista de Medicina – Curriculum Vitae, publicada em 1969. Ao narrar os acontecimentos que levaram à criação da Escola, Octávio raramente destaca sua atuação individual. Em vez disso, prefere registrar a história como resultado de um esforço coletivo, utilizando repetidamente a primeira pessoa do plural para descrever as decisões tomadas pelos fundadores.
Essa característica também aparece na forma como foi lembrado por seus contemporâneos. Jair Xavier Guimarães, integrante da primeira turma da EPM, descreveu Octávio como o líder capaz de reunir colegas "pela argumentação e pelo entusiasmo", enfrentando cada obstáculo como parte de um ideal maior. José Ribeiro do Valle, por sua vez, definiu-o como fundador, diretor, esteio e consolidador da instituição.
Em 9 de julho de 1961, ao completar 70 anos, aposentou-se compulsoriamente da cátedra de Clínica Médica, conforme determinava a legislação da época. Naquele mesmo ano, a Congregação da Escola Paulista de Medicina inaugurou um monumento em sua homenagem no pátio interno da instituição. Durante a cerimônia, o então diretor Marcos Lindenberg destacou que a homenagem reconhecia os relevantes serviços prestados "no trabalho desta casa, que ele idealizou, fundou e amou".
Após a aposentadoria, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde reuniu documentos, discursos e memórias para escrever História da Escola Paulista de Medicina – Curriculum Vitae. A obra permanece como uma das principais referências sobre os primeiros anos da EPM e um importante registro da construção da instituição sob o olhar de quem participou diretamente desse processo.
Ao concluir o livro, Octávio de Carvalho registrou uma reflexão que sintetiza sua trajetória:
"Minha felicidade é, agora que entro na velhice, ver realizado meu sonho da mocidade."
Mais de nove décadas após a fundação da Escola Paulista de Medicina, sua história permanece ligada à origem de uma instituição que ultrapassou os limites de seu tempo. Conhecer Octávio de Carvalho é compreender não apenas a trajetória de um médico e professor, mas também o processo de construção de uma escola que se tornaria parte da história da Universidade Federal de São Paulo.